Resposta curta
O custo de uma vaga médica aberta é a soma do valor a mais pago para cobrir de última hora, da hora extra de quem dobra, do tempo da coordenação e do atendimento que não acontece. Não há número oficial: a conta se faz com o fechamento do próprio setor. No exemplo deste texto, o furo custa quase o mesmo que o plantão.
O plantão descoberto custa mais do que o valor do plantão
Quando um plantão fica sem médico, a primeira conta que vem à cabeça é a do valor do turno. Mas esse valor o hospital ia pagar de qualquer jeito. O prejuízo está no que vem junto: o valor a mais para cobrir em cima da hora, a hora extra de quem dobra, o tempo da coordenação no telefone e o atendimento que deixa de acontecer.
Não existe um número oficial de quanto um furo custa. Cada hospital tem o seu. Por isso, este texto não traz média do mercado. Traz a conta, parcela por parcela, para você fazer com os números do seu setor em meia hora.
As cinco parcelas do custo de um plantão descoberto
| Parcela | O que é | Onde achar o número |
|---|---|---|
| 1. Ágio da cobertura | A diferença entre o que você pagou para cobrir de última hora e o valor normal daquele plantão. | Valor pago no fechamento menos o valor do modelo do setor. |
| 2. Hora extra de quem dobra | Quando ninguém vem e o plantonista que sai fica mais horas, ou outro profissional estica o turno. | Folha de pagamento ou fechamento de plantões. |
| 3. Tempo da coordenação | As horas que o coordenador passa ligando, mandando mensagem e refazendo a escala. | Horas gastas multiplicadas pelo valor da hora dele. |
| 4. Atendimento perdido | Leito que não abre, cirurgia remarcada, paciente que desiste da espera. | Margem (o que sobra depois dos custos), não faturamento bruto. |
| 5. Custo que aparece depois | Cansaço da equipe, médico que deixa a escala, risco maior no atendimento. | Difícil de pôr em reais. Acompanhe por indicador, não por estimativa. |
As parcelas 1, 2 e 3 você tira de papéis que já tem. A 4 pede cuidado. A 5 quase ninguém consegue medir com honestidade, e tudo bem: deixe fora da soma e acompanhe à parte.
Parcela 1: o ágio da cobertura
Ágio é o valor pago acima do normal. Se o plantão de 12 horas no pronto-socorro vale R$ 1.800 no modelo e, numa sexta à noite, só alguém aceitou por R$ 2.700, o ágio é R$ 900. É a parcela mais fácil de medir e a que mais cresce quando a escala vive no improviso.
Parcela 2: a hora extra de quem dobra
Pelo Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018), artigo 9, o médico não pode abandonar o plantão sem a presença de um substituto, salvo justo impedimento. Na prática, se o colega da noite não chega, quem está de dia tende a ficar. Esse tempo a mais tem preço. Se quem fica é empregado com carteira assinada (CLT), a hora extra vale no mínimo 50% a mais que a hora normal (Constituição, art. 7º, XVI). Se é PJ, vale o que o contrato diz para hora excedente.
Há um custo escondido aqui: o médico que dobra chega cansado ao próximo turno. Veja qual o descanso mínimo entre dois plantões.
Parcela 3: o tempo da coordenação
Conte as horas, não a sensação. Um furo de sexta à tarde costuma levar uma ou duas horas de ligações, mensagens e ajuste na planilha. Se o coordenador custa R$ 150 por hora e o mês teve seis furos de duas horas, são R$ 1.800 de trabalho que poderiam ter ido para outra coisa. Mais sobre isso em como aliviar o trabalho do médico coordenador da escala.
Parcela 4: o atendimento que não aconteceu
É a parcela que mais engana. Um leito fechado por uma noite não tira do hospital o valor inteiro da diária, porque parte do custo também não acontece. O certo é usar a margem: o que sobra depois de pagar insumos e equipe. Peça esse número ao financeiro, por tipo de atendimento. Sem ele, deixe a parcela fora da soma em vez de chutar.
Parcela 5: o que vem depois
Escala com furo frequente cansa quem fica, e quem cansa sai. Esse custo é real, mas transformar isso em reais exige dados que poucos hospitais têm. Melhor acompanhar sinais concretos: quantos médicos deixaram a escala no semestre e quem mais dobrou. Veja como reduzir a rotatividade de plantonistas e se a escala afeta a segurança do paciente.
A conta, com um exemplo para você trocar pelos seus números
Os valores abaixo são de exemplo, redondos, de um pronto-socorro qualquer. Não são média de mercado. Troque cada linha pelo número do seu setor.
| Linha | Exemplo | Seu número |
|---|---|---|
| Furos no mês (plantões cobertos com menos de 48 horas de aviso) | 6 | |
| Ágio médio por furo | R$ 900 | |
| Furos em que alguém dobrou | 2, com 6 horas extras cada | |
| Custo da hora extra de quem dobrou | R$ 225 por hora | |
| Horas da coordenação por furo | 2 horas, a R$ 150 | |
| Margem perdida (se o financeiro souber) | fora da soma |
- Ágio: 6 furos × R$ 900 = R$ 5.400.
- Dobras: 2 dobras × 6 horas × R$ 225 = R$ 2.700.
- Coordenação: 6 furos × 2 horas × R$ 150 = R$ 1.800.
- Total do mês: R$ 9.900. Dividido por 6 furos, cerca de R$ 1.650 por plantão descoberto.
- Total do ano: R$ 9.900 × 12 = R$ 118.800, só neste setor, sem contar margem perdida nem rotatividade.
Repare: no exemplo, o furo custa quase o mesmo que o próprio plantão. E isso sem a parcela 4, que fica fora da soma até o financeiro passar a margem.
Comparar o custo do furo com o custo de evitar o furo
A conta só vale se virar decisão. Com o total do ano na mão, faça três perguntas:
- Pagar mais no plantão difícil sai mais barato? Se os furos se concentram no sábado à noite, subir o valor desse turno no modelo, decidido antes, pode custar menos que o ágio de última hora. No exemplo, R$ 5.400 de ágio por mês pagam um acréscimo de R$ 300 em 18 plantões.
- A divisão está justa? Furo frequente costuma estar onde as noites e os feriados caem sempre nos mesmos nomes. Veja como dividir noites, fins de semana e feriados.
- O furo nasceu na montagem? Médico escalado sem descanso, acima da carga semanal ou sem a especialidade do setor é furo agendado. Ele aparece depois, quando alguém percebe e tira o nome.
Onde os furos nascem e o que corta cada um
| Causa do furo | Parcela que pesa | O que corta |
|---|---|---|
| Escala montada à mão, conferida depois | Ágio e coordenação | Conferir descanso, carga semanal e especialidade na hora de escalar |
| Troca combinada de boca, sem ninguém assumir | Hora extra de quem dobra | Troca que só vale quando o colega aceita, com o titular respondendo até lá |
| Vaga anunciada no grupo para todo mundo | Coordenação | Vaga aberta só para quem cumpre a regra do setor |
| Valor de cobertura decidido no desespero | Ágio | Teto de valor por setor, decidido antes |
| Noites e feriados sempre nos mesmos nomes | Rotatividade | Divisão visível por pessoa, com a média do grupo |
Para o passo a passo de quando o furo já aconteceu, leia o que fazer quando o plantão fica descoberto em cima da hora. Sobre trocas, veja quem responde até o substituto aceitar.
Como medir sem planilha paralela
A conta acima precisa de três dados por plantão: quando a vaga abriu, quem aceitou e por quanto. Na planilha e no grupo de WhatsApp, esses dados se perdem. Sem eles, o furo vira só lembrança ruim, e não número.
Acompanhe todo mês:
- Furos de última hora: plantões cobertos com menos de 48 horas de aviso.
- Ágio médio: valor pago menos valor do modelo, nesses plantões.
- Dobras: quantas vezes alguém ficou além do turno, e quem.
- Horas da coordenação: anotadas por uma semana já dão uma boa média.
Mais indicadores em quais indicadores acompanhar na escala médica.
Onde o adm.hospital entra nessa conta
O adm.hospital é o sistema de escala do hospital, para a direção e a coordenação. Ele não promete zerar furos. Ele ataca as causas da tabela acima e guarda os dados para você fazer a conta:
- O mês nasce do modelo do setor, com turnos, especialidade exigida e o valor de cada plantão. O valor do modelo é a base para medir o ágio.
- A regra é conferida antes de escalar: descanso, carga semanal, especialidade e teto. Quem quebra a regra não entra, com o motivo escrito.
- A vaga em aberto vai só para quem cumpre a regra do setor, e não para um grupo inteiro.
- Na troca, o plantão segue com o titular até um colega aceitar. A troca fica registrada com quem entrou no lugar de quem.
- Cada setor tem teto de valor. O gasto é decidido antes do fechamento. Veja como controlar o gasto com plantão antes do fechamento.
- Histórico com data e hora: quem abriu a vaga, quem aceitou a troca, quem confirmou.
- Fechamento em CSV, que abre no Excel, com plantões, horas e valor por profissional. É dele que saem as parcelas 1 e 2. Veja como fechar o mês de plantões.
- Divisão de noites, fins de semana e feriados por pessoa, com a média do grupo.
Para o médico, é grátis, sempre. Dá para começar por um setor só e decidir depois se vale para o resto. Veja como fica a semana da coordenação, como contratar e como os dados são protegidos. Se já usa outra ferramenta, compare no comparativo.
Faça a conta hoje, com o seu setor
Pegue o fechamento do último mês de um setor só. Marque os plantões cobertos com menos de 48 horas de aviso. Some o ágio, as dobras e as horas da coordenação. Se o total do ano passar do que custaria pagar melhor os turnos difíceis, a decisão está tomada. Pela Resolução CFM nº 2.147/2016, cabe ao diretor técnico organizar a escala de plantonistas para que o serviço não fique com lacunas. Ter o custo do furo em reais ajuda a defender esse orçamento.
Quer ver a regra, a vaga e o fechamento funcionando antes de conversar? Experimente a escala no navegador, sem cadastro.
Perguntas rápidas
Quanto custa um plantão descoberto?
Não há valor oficial. Some o valor pago acima do normal para cobrir, a hora extra de quem dobrou, as horas da coordenação e, se o financeiro souber, a margem do atendimento perdido. No exemplo do artigo, com valores redondos, o furo sai por cerca de R$ 1.650, perto dos R$ 1.800 do próprio plantão. Faça a conta com os números do seu setor.
Devo usar o faturamento perdido na conta?
Não. Use a margem, que é o que sobra depois dos custos. Um leito fechado também deixa de gastar insumo e equipe, então o faturamento bruto exagera a perda.
O médico pode ir embora se o substituto não chegar?
Não. O Código de Ética Médica, no artigo 9, proíbe abandonar o plantão sem a presença de substituto, salvo justo impedimento. Por isso o furo costuma virar hora extra de quem já está no turno.
Quanto custa a hora extra de quem dobra o plantão?
Para empregado CLT, no mínimo 50% a mais que a hora normal, pela Constituição, art. 7º, XVI. Para médico PJ, vale o que o contrato diz para hora excedente.
Como reduzir o custo dos plantões descobertos?
Confira descanso, carga e especialidade antes de escalar, mande a vaga só para quem cumpre a regra, mantenha o titular responsável até a troca ser aceita e decida o valor dos turnos difíceis antes, com teto por setor.
