Resposta curta
Acompanhe 8 indicadores na escala médica: cobertura, furo de última hora, tempo até cobrir, gasto contra o previsto, ágio, carga e descanso, divisão dos plantões difíceis e trocas. Se está começando, fique com três: cobertura, furo de última hora e gasto contra o previsto.
Indicador bom é o que muda uma decisão
Dá para medir dezenas de coisas numa escala médica. Quase nenhuma muda o que você faz na segunda-feira. Um indicador só vale a pena se, quando ele piora, alguém sabe o que fazer: chamar mais um médico para o grupo, rever o valor da noite, conversar com quem pega plantão demais.
Por isso, este texto não traz 15 indicadores. Traz 8, cada um com a conta, de onde tirar o número e o que fazer quando ele acende. Todos saem de papéis que você já tem: a escala do mês, o fechamento e o registro das trocas.
Uma coisa antes: não existe meta oficial para esses números. O que existe é a obrigação do diretor técnico de organizar a escala de plantonistas sem lacunas nas 24 horas e de tomar providências quando falta plantonista (Resolução CFM 2.147/2016). Os indicadores abaixo servem para mostrar, com número, se isso está acontecendo.
Os 8 indicadores da escala, em uma tabela
| Indicador | A conta | De onde vem | Quando acender o alerta |
|---|---|---|---|
| 1. Cobertura | Plantões preenchidos ÷ plantões previstos no mês | Escala do mês | Qualquer plantão que ficou sem médico |
| 2. Furo de última hora | Vagas que abriram com menos de 48 horas ÷ plantões do mês | Registro de quando a vaga foi aberta | Subiu dois meses seguidos |
| 3. Tempo até cobrir | Hora em que alguém confirmou menos hora em que a vaga abriu | Registro com data e hora | Vaga de noite coberta só depois das 18h |
| 4. Gasto contra o previsto | Valor pago no mês ÷ valor previsto no modelo do setor | Fechamento do mês | Passou do previsto ou do teto do setor |
| 5. Ágio de cobertura | Soma do que foi pago acima do valor normal de cada plantão | Fechamento comparado ao modelo | Aparece todo mês no mesmo turno |
| 6. Carga e descanso | Horas por semana e intervalo entre plantões de cada médico | Escala e fechamento por pessoa | Alguém acima do limite que o hospital definiu |
| 7. Divisão dos plantões difíceis | Noites, fins de semana e feriados por pessoa contra a média do grupo | Escala por pessoa | Mesma pessoa acima da média dois meses seguidos |
| 8. Trocas e saídas | Trocas ÷ plantões do mês; médicos que deixaram a escala no semestre | Registro das trocas e cadastro da equipe | Troca pedida em cima da hora ou saída de quem é fixo |
Os indicadores 1 a 3 falam de risco: o setor ficou sem médico? Os 4 e 5 falam de dinheiro. Os 6 a 8 falam de gente: a equipe aguenta esse ritmo por mais seis meses? Uma escala pode ir bem em um grupo e mal em outro, e é isso que a tabela mostra.
Cada indicador, com o que fazer quando ele piora
1. Cobertura: o setor teve médico em todos os turnos?
É o primeiro número e o mais sério. Conte por setor e por turno, nunca só o total do hospital. Um hospital com 99% de cobertura pode ter todas as falhas concentradas na noite de domingo da UTI. A média esconde exatamente o furo que importa.
Um detalhe que muda a conta: se o plantonista do dia ficou mais 6 horas porque ninguém veio, parte do turno teve médico, mas a escala falhou. Conte esse plantão como não coberto pela escala. Senão o indicador fica bonito e o problema some do papel. Para o que fazer na hora, veja o que fazer quando o plantão fica descoberto em cima da hora.
2. Furo de última hora: quantas vagas abriram em cima da hora?
Furo é a vaga que abre depois que a escala já estava fechada: atestado, desistência, troca que não deu certo. Separe as que abrem com menos de 48 horas. São elas que geram ligação às 22h e pagamento acima do normal.
Olhe quem e quando. Se os furos se concentram em um turno, o problema é o turno (valor baixo, horário ruim). Se se concentram em uma pessoa, a conversa é com ela.
3. Tempo até cobrir: quanto a vaga ficou aberta?
É a diferença entre a hora em que a vaga abriu e a hora em que alguém confirmou. Uma vaga de sábado à noite que abre na sexta às 14h e é coberta às 14h40 é um susto. A mesma vaga coberta no sábado às 17h é um risco. Para medir isso, você precisa de um registro com data e hora de cada mudança, e não da memória do coordenador. Veja como registrar quem mudou a escala e quando.
4. Gasto contra o previsto: o mês fechou no valor combinado?
Some o que foi pago no mês e divida pelo valor previsto no modelo do setor. Exemplo: previsto de R$ 114.000, pago R$ 119.700. O mês saiu 5% acima. A pergunta seguinte é sempre a mesma: onde estão esses R$ 5.700? Quase sempre estão nos indicadores 2 e 5.
Melhor ainda é decidir o limite antes, com um teto de valor por plantão em cada setor. Assim o indicador deixa de ser uma surpresa no dia 30. Veja como controlar o gasto com plantão antes do fechamento.
5. Ágio de cobertura: quanto você pagou a mais para cobrir?
Ágio é o valor pago acima do normal. Se a noite do pronto-socorro vale R$ 2.000 e foi coberta por R$ 2.600, o ágio daquele plantão é R$ 600. Some todos os ágios do mês e anote em qual turno aconteceram.
Se o ágio aparece todo mês na mesma noite, ele já não é exceção: é o preço real daquele turno. Vale mais subir o valor do modelo e preencher com antecedência do que pagar o ágio em cima da hora, com estresse. A conta completa está em quanto o hospital perde por plantão descoberto.
6. Carga e descanso: alguém está passando do limite?
Conte, por médico, as horas de cada semana e o intervalo entre o fim de um plantão e o começo do próximo. O indicador é simples: quantas pessoas passaram do limite que o hospital definiu. O ideal é zero, e o jeito de chegar a zero é conferir isso antes de escalar, não depois. Para o que diz a regra, veja qual o descanso mínimo entre dois plantões e se existe limite de horas semanais para o plantonista.
7. Divisão dos plantões difíceis: quem fica com as noites?
Não olhe só o total de plantões. Dois médicos com 10 plantões cada podem ter meses muito diferentes: um com 2 noites, outro com 8. Conte noites, fins de semana e feriados separados, por pessoa, e compare com a média do grupo. Quem ficar acima da média dois meses seguidos precisa de ajuste no mês seguinte. O passo a passo está em como dividir noites, fins de semana e feriados de forma justa.
8. Trocas e saídas: a equipe está se mexendo demais?
Troca não é problema. Troca bem feita, combinada com dias de antecedência, é sinal de equipe que se organiza. O sinal ruim é a troca pedida em cima da hora e, pior, a troca combinada de boca que ninguém registrou. Separe as duas coisas.
Junto, acompanhe quantos médicos deixaram a escala no semestre e quem eram. Perder um eventual é normal. Perder dois plantonistas fixos do mesmo setor em três meses é aviso. Quase sempre os indicadores 6 e 7 já mostravam o motivo antes. Veja quem responde na troca até o substituto aceitar e como reduzir a rotatividade de plantonistas.
Exemplo: o painel de um mês no pronto-socorro
Um pronto-socorro com 6 médicos, 1 por turno, diurno das 7h às 19h e noturno das 19h às 7h. O mês tem 30 dias: 60 plantões e 720 horas. No modelo do setor, o diurno vale R$ 1.800 e o noturno R$ 2.000. Previsto: R$ 114.000.
O mês, como aconteceu:
- 3 vagas abriram com menos de 48 horas, todas de noite.
- 2 foram cobertas a R$ 2.200 cada. Uma levou 40 minutos; a outra, 9 horas.
- 1 não foi coberta. O médico do dia ficou mais 6 horas, até a 1h, pagas a R$ 150 a hora: R$ 900. Da 1h às 7h, o setor ficou sem plantonista.
- 9 trocas no mês, 2 pedidas com menos de 24 horas.
- A Dra. Ana fez 7 noites. A média do grupo era 5.
| Indicador | Resultado | Leitura |
|---|---|---|
| Cobertura | 59 de 60 (98,3%) | Um turno da noite sem plantonista da escala (6 horas sem médico) |
| Furo de última hora | 3 de 60 (5%) | Os 3 na noite: olhar o turno |
| Tempo até cobrir | 40 min, 9 h e nunca | Um furo resolvido; dois viraram risco |
| Gasto contra o previsto | R$ 113.300 de R$ 114.000 | Parece ótimo, mas só porque um plantão não foi pago inteiro |
| Ágio de cobertura | R$ 400 + R$ 900 de hora extra | Pequeno, mas todo na noite |
| Divisão | Ana com 7 noites (média 5) | Ajustar no mês seguinte |
| Trocas | 9 (15%), 2 em cima da hora | Ver se as 2 são as mesmas noites dos furos |
A lição deste exemplo: o gasto fechou abaixo do previsto e, mesmo assim, foi um mês ruim. Quem olhasse só o financeiro diria que está tudo certo. Os outros indicadores mostram uma noite frágil, uma médica sobrecarregada e um plantão em que o setor dependeu de alguém aceitar ficar 18 horas seguidas.
Três armadilhas na hora de ler os números
- Média do hospital inteiro. Esconde o setor que está mal. Leia sempre por setor e por turno.
- Taxa de faltas copiada da enfermagem. Na equipe de carteira assinada (CLT), falta é ausência na jornada. Com médico PJ, o que importa é o plantão que abriu depois de fechado. Conte furo, não falta.
- Número sem nome. “5% de furos” não diz o que fazer. “3 furos, todos na noite de sexta” diz. Guarde sempre quem, quando e onde junto com a porcentagem.
Quem olha o quê, e com que frequência
| Quem | O que olhar | Quando |
|---|---|---|
| Coordenação da escala | Cobertura da semana que vem, vagas abertas, carga e descanso | Toda semana, de preferência na sexta de manhã |
| Coordenação e direção | Gasto contra o previsto, ágio, divisão por pessoa, trocas | No fechamento do mês |
| Direção | Tendência de furos e de ágio, saídas da equipe | A cada trimestre |
Se você está começando, não tente os 8 de uma vez. No primeiro mês, acompanhe três: cobertura, furo de última hora e gasto contra o previsto. Eles já mostram onde está o risco e para onde vai o dinheiro. Acrescente os outros quando o hábito pegar. Para saber se o problema é falta de gente, e não de organização, veja como dimensionar a equipe médica de cada setor.
De onde tirar os números sem virar mais uma planilha
O maior inimigo do indicador é a apuração. Se o coordenador precisa passar uma tarde do dia 30 somando plantões, ele vai parar de medir no terceiro mês. Os números precisam sair da própria escala.
No adm.hospital, o sistema de escala do hospital, eles saem assim:
- Fechamento do mês em CSV (uma planilha que abre no Excel), com plantões, horas e valor por profissional. Daí saem os indicadores 4 e 6.
- Divisão por pessoa: noites, fins de semana e feriados de cada um, com a média do grupo. É o indicador 7 pronto.
- Histórico com data e hora de quem abriu a vaga, quem aceitou a troca e quem confirmou. Daí saem os indicadores 2, 3 e 8.
- Teto de valor por setor e a trava antes de escalar: descanso, carga semanal e especialidade exigida são conferidos, e quem passaria do teto não entra. Isso segura os indicadores 4 e 6 antes de virarem problema.
Para ser claro: o adm.hospital não é um painel de indicadores com gráficos. Ele entrega os números de base, já somados, e a conta de porcentagem você faz em minutos a partir do CSV. Veja como fica a rotina da coordenação em a semana do gestor, teste com dados de exemplo em Experimente ou veja como funciona o fechamento mensal de plantões.
Perguntas rápidas
Qual o indicador mais importante da escala médica?
A cobertura por setor e por turno: quantos plantões tiveram médico da escala, de todos os previstos. É o que mostra se o setor ficou sem plantonista, e a escala sem lacunas é dever do diretor técnico.
Como calcular a taxa de cobertura da escala?
Divida os plantões preenchidos pelos plantões previstos no mês. Num pronto-socorro com 60 plantões e 1 sem médico da escala, a cobertura é 59 ÷ 60 = 98,3%. Conte como não coberto o turno em que alguém só ficou porque ninguém veio.
Existe meta oficial para esses indicadores?
Não. Não há meta oficial de cobertura, furo ou troca para escala médica. Compare o setor com ele mesmo, mês a mês, e defina o limite junto com a direção.
Por onde começar se nunca medi nada?
Por três indicadores: cobertura, furo de última hora (vaga aberta com menos de 48 horas) e gasto contra o previsto. Eles mostram o risco e o dinheiro. Os outros entram depois.
Troca de plantão alta é sinal ruim?
Nem sempre. Troca combinada com antecedência e registrada é saudável. O sinal ruim é a troca em cima da hora e a troca combinada de boca, sem registro.
O adm.hospital mostra esses indicadores?
Ele entrega os números de base: plantões, horas e valor por profissional em CSV, a divisão de noites, fins de semana e feriados com a média do grupo e o histórico com data e hora. Não é um painel de gráficos; as porcentagens você calcula a partir disso.
