Resposta curta
No plantão de sobreaviso, o médico fica fora do hospital e vai quando é chamado; pelo CFM, essa disponibilidade tem que ser paga, com valor combinado antes. Para o médico CLT, cada hora vale 1/3 do salário-hora; para o PJ, vale o contrato, sem deixar de pagar a disponibilidade.
O que é plantão de sobreaviso
No sobreaviso, o médico não fica no hospital. Ele fica disponível, em casa ou perto, e vai até lá quando é chamado. É o que o Conselho Federal de Medicina chama de "disponibilidade médica em sobreaviso", no art. 1º da Resolução CFM nº 1.834/2008: o médico fica à disposição, de forma não presencial, numa jornada combinada antes, e precisa chegar a tempo quando for acionado.
Um exemplo comum: o pronto-socorro tem clínico e cirurgião geral de plantão na sala. O cardiologista, o neurocirurgião e o urologista ficam de sobreaviso. O plantonista atende primeiro e chama o especialista só quando o caso pede.
O sobreaviso existe porque poucos hospitais conseguem manter todas as especialidades presentes 24 horas. A própria exposição de motivos da resolução diz isso. Ele é um reforço de segunda linha, não um substituto do médico de plantão.
Sobreaviso, prontidão e plantão presencial: a diferença em uma tabela
| Modalidade | Onde o médico fica | Como costuma ser pago | Quando usar |
|---|---|---|---|
| Plantão presencial | No hospital, o turno inteiro | Valor cheio do turno | Atendimento contínuo: PS, UTI, internação |
| Prontidão | No hospital ou nas dependências do serviço, esperando ordens | Na CLT, 2/3 do salário-hora, em escala de até 12 horas (CLT, art. 244, §3º) | Pouco usada para médico; aparece mais em outras categorias |
| Sobreaviso | Fora do hospital, com telefone, pronto para ir | Valor pela disponibilidade, mais o pagamento pelo que fizer quando chamado | Especialidade chamada poucas vezes por noite |
A regra da prontidão e do sobreaviso na CLT nasceu para ferroviários. Para outros empregados, a Justiça do Trabalho a usa por analogia, ou seja, aplica a regra parecida porque não existe uma própria. Veja o item a seguir.
O que a regra exige do hospital
A Resolução CFM nº 1.834/2008 é curta e vale para todo médico em sobreaviso, seja CLT, PJ ou servidor. Em 2026, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região manteve a resolução válida, como noticiou o CFM. Para o gestor de escala, ela se resume em sete pontos:
- Sobreaviso não substitui o plantão presencial. Hospital com internação ou observação precisa de médico no local 24 horas, com ou sem sobreaviso (art. 1º, parágrafo único).
- Tem que ser pago. A disponibilidade deve ser remunerada "de forma justa", sem tirar os honorários dos procedimentos que o médico fizer quando chamado (art. 2º).
- O valor é combinado antes. Médicos da escala e direção técnica acertam o valor previamente (art. 2º, parágrafo único). Não vale definir depois do mês.
- A escala fica afixada. O diretor técnico deve deixar visível, para uso interno, quem está de sobreaviso e em qual especialidade (art. 3º, parágrafo único).
- O chamado é registrado. Quem aciona é o plantonista ou alguém da equipe médica. Ele informa a gravidade e anota data e hora do chamado no prontuário (art. 3º).
- Quem chamou segue responsável até o colega chegar. Na urgência, o plantonista continua com o paciente até a chegada do médico de sobreaviso. Os dois decidem juntos quem segue com o caso (art. 4º).
- Participar é escolha do médico. Ninguém pode ser obrigado a fazer sobreaviso para continuar no corpo clínico (art. 5º). As especialidades que terão sobreaviso são decididas pelo diretor técnico junto com o corpo clínico (art. 6º).
Dois limites a mais. O médico residente não pode fazer sobreaviso: a Resolução CNRM nº 4/2010 reconhece só o plantão presencial com preceptor. E o Parecer CFM nº 34/2016 registra o entendimento de que não se paga sobreaviso simultâneo em mais de uma especialidade, e que ficar de sobreaviso em duas instituições ao mesmo tempo é prática desaconselhada.
Quanto pagar pelo sobreaviso
Não existe tabela oficial de valor de sobreaviso para médico. O que existe é a regra de como chegar ao valor. Ela muda conforme o vínculo do médico.
Médico com carteira assinada (CLT)
A CLT trata do sobreaviso no art. 244, §2º: o empregado fica em casa esperando o chamado, cada escala tem no máximo 24 horas, e cada hora de sobreaviso conta como 1/3 do salário-hora normal. A Súmula 428 do TST estende essa regra, por analogia, a quem fica à distância, controlado pelo empregador por celular ou outro meio, esperando o chamado durante o descanso. Ter um celular da empresa, sozinho, não basta para virar sobreaviso.
Exemplo com valores redondos:
- Salário-hora do médico: R$ 150.
- Sobreaviso de 12 horas, das 19h às 7h: 12 × R$ 50 (1/3 de R$ 150) = R$ 600.
- Ele é chamado e trabalha 2 horas no hospital. Essas 2 horas são trabalho de verdade, pagas como hora trabalhada e, se passarem da jornada, como hora extra, que vale pelo menos 50% a mais que a normal (Constituição, art. 7º, XVI).
Some ainda adicional noturno e os reflexos que o contrato e a convenção coletiva (o acordo entre sindicatos da região) preverem. Confirme a conta com o jurídico e o departamento pessoal.
Médico PJ ou autônomo
Para o médico que presta serviço por empresa, não há percentual em lei. O valor é o que estiver no contrato. Mas a resolução do CFM vale para ele também: a disponibilidade tem que ser paga, de forma justa, com valor combinado antes. O Parecer CFM nº 9/2003 já dizia o mesmo: o sobreaviso deve ser remunerado.
Na prática, há três formas de contrato:
| Modelo | Como funciona | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| Fixo pela disponibilidade | Um valor por período de sobreaviso, chamado ou não | Simples de prever. Os honorários dos procedimentos feitos no chamado continuam devidos |
| Fixo + valor por chamado | Um valor menor pela disponibilidade e outro por cada ida ao hospital | O mais comum e o mais justo quando o número de chamados varia muito |
| Só por chamado | Paga apenas se o médico for acionado | Conflita com a regra do CFM: a disponibilidade, sozinha, já deve ser paga |
Antes de escrever o contrato do PJ, leia também escalar médico PJ pode gerar vínculo trabalhista? Exigir que o médico fique em casa sob controle, com escala imposta, pode pesar numa discussão de vínculo.
Sobreaviso ou plantão presencial: a conta que decide
O sobreaviso só sai mais barato enquanto o especialista é pouco chamado. A conta é simples. Exemplo com valores de demonstração, para uma noite de 12 horas de cardiologia:
- Plantão presencial noturno: R$ 1.800.
- Sobreaviso: R$ 600 pela disponibilidade, mais R$ 500 por chamado.
| Chamados na noite | Custo do sobreaviso | Comparado ao presencial (R$ 1.800) |
|---|---|---|
| 0 | R$ 600 | R$ 1.200 a menos |
| 1 | R$ 1.100 | R$ 700 a menos |
| 2 | R$ 1.600 | R$ 200 a menos |
| 3 | R$ 2.100 | R$ 300 a mais |
O ponto de virada é (R$ 1.800 − R$ 600) ÷ R$ 500 = 2,4 chamados por noite. Acima disso, o presencial sai mais barato. E o custo não é só dinheiro: se o especialista é chamado quase toda noite, o paciente espera o deslocamento toda noite.
Faça a conta com os seus números. Pegue os últimos três meses, conte quantas vezes cada especialidade foi chamada por noite e compare. Para enxergar o gasto do setor antes de fechar o mês, veja como controlar o gasto com plantão antes do fechamento.
Como organizar a escala de sobreaviso, em 6 passos
1. Decida as especialidades com o corpo clínico
Liste as especialidades que o hospital precisa ter à disposição e com que frequência elas são chamadas. A decisão é do diretor técnico junto com o corpo clínico, e leva em conta o porte e o perfil do hospital, como lembra o Parecer CFM nº 34/2016. Para dimensionar o resto da equipe, veja como dimensionar a equipe médica de cada setor.
2. Escreva o tempo de chegada no contrato
A resolução fala em chegar "em tempo hábil", sem número. Então o número é seu: por exemplo, "chegar ao hospital em até 40 minutos após o chamado". Combine também por qual meio o médico será chamado e quem liga para o substituto se ele não atender.
3. Feche o valor antes do mês começar
Valor da disponibilidade, valor por chamado (se houver), adicional de noite, fim de semana e feriado. Tudo escrito e aceito pelos médicos da escala e pela direção técnica, como pede a resolução.
4. Monte e publique a escala
Quem está de sobreaviso, em qual especialidade, de que hora a que hora. A escala precisa estar visível para o plantonista que vai chamar, a qualquer hora. Divida as noites, fins de semana e feriados com o mesmo cuidado do plantão presencial: veja como dividir noites, fins de semana e feriados de forma justa.
5. Registre cada chamado
Data, hora, quem chamou, a gravidade informada e a hora de chegada. O registro no prontuário é exigência da resolução. Uma cópia administrativa, sem dado do paciente, serve para pagar o valor por chamado e para medir a frequência de cada especialidade.
6. Revise a cada trimestre
Olhe três números por especialidade: chamados por noite, tempo médio de chegada e custo total do mês. Se os chamados passaram do ponto de virada, é hora de pensar em plantão presencial. Veja outros números úteis em quais indicadores acompanhar na escala médica.
Erros comuns com o sobreaviso
- Pagar só quando o médico vai ao hospital. A regra do CFM manda pagar a disponibilidade.
- Usar sobreaviso para tapar furo de plantão presencial. Se o PS precisa de médico na sala, o sobreaviso não resolve. Veja o que fazer quando o plantão fica descoberto em cima da hora e quanto o hospital perde por plantão descoberto.
- Escalar o mesmo médico de sobreaviso em dois hospitais na mesma noite. Se os dois chamarem ao mesmo tempo, um paciente fica sem especialista.
- Escalar residente de sobreaviso. É proibido pela CNRM.
- Esquecer o dia seguinte. Quem foi chamado às 3h e operou até as 6h não está descansado para o plantão das 7h. Leve isso em conta ao escalar: veja qual o descanso mínimo entre dois plantões e o limite de horas semanais do plantonista.
- Trocas combinadas por mensagem. O plantonista liga para quem está na escala afixada, não para quem trocou de boca. Toda troca precisa aparecer na escala. Veja na troca de plantão, quem responde até o substituto aceitar?
Onde o adm.hospital entra
O adm.hospital é o sistema de escala de plantões do hospital. As regras de sobreaviso, o valor e o contrato continuam sendo decisões da direção técnica e do corpo clínico. O que o sistema faz na escala do setor é:
- Escala do mês pelo modelo do setor: turnos, especialidade exigida e valor definidos uma vez; o mês nasce pronto.
- Trava de regras antes de escalar: descanso, carga semanal, especialidade exigida e teto de valor são checados antes de confirmar. Quem quebra a regra não entra.
- Vaga para quem pode assumir: a vaga em aberto vai só para quem cumpre a regra do setor.
- Troca rastreada: o plantão segue com o titular até um colega que cumpre a regra aceitar.
- Histórico: quem abriu a vaga, quem aceitou a troca e quem confirmou, com data e hora.
- Fechamento em CSV: plantões, horas e valor por profissional, numa planilha que abre no Excel.
- Divisão visível: noites, fins de semana e feriados por pessoa, com a média do grupo.
Se o seu hospital quer levar o sobreaviso para a mesma escala, abra a demonstração e veja como o modelo do setor ficaria com os seus turnos antes de decidir. A visão da coordenação está em para o gestor de escala, e a da direção em para hospitais. Para comparar com outras formas de fazer escala, veja o comparativo; para o cuidado com os dados, a página de segurança.
Resumo para levar à direção técnica
- Sobreaviso é o médico disponível fora do hospital, pronto para ir quando chamado.
- Ele não substitui o médico presente 24 horas em hospital com internação ou observação.
- Tem que ser pago, com valor justo combinado antes, e sem tirar os honorários dos procedimentos.
- CLT: cada hora de sobreaviso vale 1/3 do salário-hora; o tempo trabalhado no chamado é pago como trabalho.
- PJ: vale o contrato, mas a disponibilidade também deve ser paga.
- Participar é escolha do médico; residente não faz sobreaviso.
- Registre cada chamado e revise a frequência: acima do ponto de virada, o presencial sai mais barato.
Para fechar o mês com sobreaviso e plantões juntos, veja como fechar o mês de plantões e mandar para o financeiro.
Perguntas rápidas
O plantão de sobreaviso precisa ser pago?
Sim. Pela Resolução CFM nº 1.834/2008, a disponibilidade em sobreaviso deve ser remunerada de forma justa, com valor combinado antes entre os médicos da escala e a direção técnica, sem tirar os honorários dos procedimentos feitos quando o médico é chamado.
Quanto vale a hora de sobreaviso do médico CLT?
Pela CLT (art. 244, §2º), aplicada por analogia pela Súmula 428 do TST, cada hora de sobreaviso vale 1/3 do salário-hora normal. Exemplo: com salário-hora de R$ 150, 12 horas de sobreaviso valem R$ 600. As horas trabalhadas no chamado são pagas como trabalho.
Existe valor mínimo de sobreaviso para médico PJ?
Não há valor fixado em lei para o PJ. Vale o contrato. Mas a regra do CFM também se aplica: a disponibilidade deve ser paga, e o valor tem que ser acertado antes. Contrato que paga só quando o médico é chamado conflita com essa regra.
O hospital pode obrigar o médico a fazer sobreaviso?
Não. A Resolução CFM nº 1.834/2008 diz que o médico do corpo clínico decide livremente se participa, e o regimento interno não pode condicionar a permanência no corpo clínico ao sobreaviso.
Médico residente pode ficar de sobreaviso?
Não. A Resolução CNRM nº 4/2010 reconhece só o plantão presencial do residente, com preceptor, e considera o sobreaviso irregular.
Quando vale trocar o sobreaviso por plantão presencial?
Quando o especialista é chamado tantas vezes que o custo passa o do presencial. Exemplo: presencial a R$ 1.800, sobreaviso a R$ 600 mais R$ 500 por chamado. Acima de 2,4 chamados por noite, o presencial sai mais barato.
