Resposta curta
Cada setor precisa do seu próprio modelo de escala: a UTI pede intensivista 24 horas, o PS pede reforço no horário de pico, a UPA pede divisão justa de noites e o centro cirúrgico separa a urgência da agenda de eletivas. Descanso e carga semanal são conferidos somando todos os setores do médico.
Por que cada setor precisa da sua própria escala
Muito hospital monta uma escala só, numa planilha só, com todos os setores misturados. Funciona até o dia em que o clínico do pronto-socorro aparece na vaga da UTI, ou o mesmo nome cai na noite da UPA e na manhã do centro cirúrgico.
A UTI, o pronto-socorro (PS), a UPA e o centro cirúrgico não funcionam do mesmo jeito. Cada um tem a sua demanda, os seus turnos, a sua especialidade e o seu preço. Por isso cada setor precisa de um modelo: a descrição fixa de como aquele setor funciona, escrita uma vez e usada todo mês. Se você ainda não tem modelo nenhum, comece por como montar a escala do mês a partir do modelo do setor.
Todo modelo responde às mesmas cinco perguntas:
- Turnos: quais horários existem. Exemplo: 7h às 19h e 19h às 7h.
- Vagas por turno: quantos médicos cada turno precisa.
- Especialidade exigida: quem pode ocupar cada vaga.
- Valor: quanto o hospital paga por aquele plantão.
- Teto: o valor máximo que o setor aceita pagar naquele plantão, mesmo numa emergência.
O que muda de um setor para outro é a resposta. É isso que este artigo mostra, setor por setor, com números de exemplo.
Os quatro setores lado a lado
| Setor | Como a demanda se comporta | O que a escala precisa garantir | Onde costuma dar errado |
|---|---|---|---|
| UTI | Estável: o número de leitos é fixo | Médico com a especialidade certa presente 24 horas | Furo na noite e plantonista sem a especialidade exigida |
| Pronto-socorro | Varia por hora e por dia da semana | Mais gente no horário de pico, não só mais plantões | Escala igual o dia todo: sobra médico de madrugada e falta no fim da tarde |
| UPA | Porta aberta 24 horas, com adulto e criança | Cada vaga com a especialidade dela (clínico, pediatra) | Noites e fins de semana sempre com as mesmas pessoas |
| Centro cirúrgico | Eletivas na agenda; urgência a qualquer hora | Cirurgião e anestesista para a urgência, separados da agenda | Plantonista da urgência preso numa eletiva |
Os números a seguir são exemplos redondos, para você ver o tamanho de cada mês. Troque pelos do seu hospital.
Escala médica da UTI
Na UTI, a demanda quase não muda: os leitos estão lá todos os dias. A escala precisa de duas coisas acima de tudo: presença 24 horas e a especialidade certa em cada vaga.
Plantonista e diarista são papéis diferentes
O plantonista cobre o turno, de dia e de noite. O diarista (também chamado de rotina) é o médico que acompanha os mesmos pacientes durante a semana, em horário fixo, e dá continuidade ao cuidado. O Parecer CFM nº 24/2019 descreve a equipe médica da UTI com coordenador ou responsável técnico, intensivista diarista e intensivista plantonista. Ou seja: na UTI, o normal é a vaga exigir intensivista, o especialista em medicina intensiva.
Quantos médicos por leito? Existem normas da Anvisa e pareceres do CFM sobre isso, e elas mudam com o tempo e com o tipo de UTI (adulto, pediátrica, neonatal). Confira a regra vigente com a sua responsável técnica antes de fechar o modelo. Para fazer a conta de quantos médicos cada setor precisa, veja dimensionamento da equipe médica.
Exemplo de modelo da UTI
| Turno | Horário | Vagas | Especialidade | Valor | Teto |
|---|---|---|---|---|---|
| Diurno | 7h às 19h | 1 | Medicina intensiva | R$ 1.800 | R$ 2.200 |
| Noturno | 19h às 7h | 1 | Medicina intensiva | R$ 2.000 | R$ 2.400 |
- Plantões no mês de 30 dias: 2 turnos × 1 vaga × 30 dias = 60 plantões, ou 720 horas.
- Custo previsto: 30 × R$ 1.800 + 30 × R$ 2.000 = R$ 54.000 + R$ 60.000 = R$ 114.000.
- Tamanho da equipe: se cada intensivista faz em média 8 plantões no mês, você precisa de pelo menos 8 nomes (60 ÷ 8 = 7,5). Com menos que isso, alguém vai acumular noites.
O cuidado especial da UTI
O furo mais caro da UTI é o da noite, porque não dá para cobrir com qualquer médico. Se a regra de especialidade não estiver no modelo, a pressa da madrugada coloca na vaga quem estiver disponível. Por isso a especialidade exigida precisa travar a escala, e não ficar só na cabeça do coordenador. Veja em como impedir que um médico sem a especialidade exigida seja escalado.
Escala médica do pronto-socorro
No PS, o problema não é o total de plantões. É o horário. O movimento sobe e desce ao longo do dia e da semana, e uma escala com o mesmo número de médicos às 4h e às 19h desperdiça dinheiro num horário e deixa fila no outro.
Reforço é um turno, não um favor
Antes de montar o modelo, olhe os seus próprios registros de atendimento: em que horário e em que dia a fila cresce. Com isso, crie um turno de reforço no modelo, com horário, especialidade e valor próprios. Assim o reforço aparece na escala todo mês, em vez de ser um pedido feito no grupo de mensagens quando a fila já está grande.
Exemplo de modelo do PS
| Turno | Horário | Vagas | Especialidade | Valor | Teto |
|---|---|---|---|---|---|
| Diurno | 7h às 19h | 2 | Clínica médica | R$ 1.400 | R$ 1.700 |
| Noturno | 19h às 7h | 2 | Clínica médica | R$ 1.600 | R$ 1.900 |
| Reforço | 16h às 22h | 1 | Clínica médica | R$ 750 | R$ 900 |
- Plantões no mês: 60 diurnos + 60 noturnos + 30 reforços = 150 plantões.
- Custo previsto: R$ 84.000 + R$ 96.000 + R$ 22.500 = R$ 202.500.
- A conta do reforço: um terceiro médico no diurno inteiro custaria 30 × R$ 1.400 = R$ 42.000. O reforço de 6 horas no pico custa R$ 22.500. São R$ 19.500 a menos no mês, com gente a mais justamente na hora em que a fila cresce.
Se o PS atende ortopedia ou pediatria, cada uma vira uma vaga separada no modelo, com a sua especialidade. Não misture na mesma vaga.
Escala médica da UPA
A UPA (Unidade de Pronto Atendimento) é um serviço de porta aberta 24 horas, em geral com adulto e criança no mesmo plantão. O desafio dela é menos o horário de pico e mais o desgaste: são muitas noites, sábados e domingos para dividir, e a equipe costuma ter gente fixa e gente que pega plantão avulso.
Exemplo de modelo da UPA
| Turno | Horário | Vagas | Especialidade | Valor | Teto |
|---|---|---|---|---|---|
| Diurno | 7h às 19h | 2 | Clínica médica | R$ 1.300 | R$ 1.600 |
| Diurno | 7h às 19h | 1 | Pediatria | R$ 1.500 | R$ 1.800 |
| Noturno | 19h às 7h | 2 | Clínica médica | R$ 1.500 | R$ 1.800 |
| Noturno | 19h às 7h | 1 | Pediatria | R$ 1.700 | R$ 2.000 |
- Plantões no mês: 6 vagas por dia × 30 dias = 180 plantões, sendo 90 noturnos.
- Custo previsto: 60 × R$ 1.300 + 30 × R$ 1.500 + 60 × R$ 1.500 + 30 × R$ 1.700 = R$ 78.000 + R$ 45.000 + R$ 90.000 + R$ 51.000 = R$ 264.000.
- A divisão das noites: 60 noites de clínica para 12 clínicos dá média de 5 noites por pessoa. Se alguém está com 9 e outro com 1, a conta não fecha e a reclamação vai chegar.
O cuidado especial da UPA
Separe a vaga do pediatra da vaga do clínico. Se as duas forem "médico" no modelo, o plantão da criança pode ficar com quem não é pediatra sem ninguém perceber até a hora do atendimento. E mostre para a equipe, todo mês, quantas noites, fins de semana e feriados cada um pegou, com a média do grupo. Veja como em como dividir noites, fins de semana e feriados de forma justa.
Escala médica do centro cirúrgico
No centro cirúrgico existem duas coisas diferentes que muita gente trata como uma só:
- A agenda de eletivas: as cirurgias marcadas com antecedência. Ela é organizada por sala e por cirurgião, e não é escala de plantão.
- A escala de urgência: quem responde pela cirurgia que chega sem hora marcada. Essa é a escala de plantão do setor.
O erro clássico é o plantonista da urgência estar com uma eletiva marcada no mesmo horário. Quando a urgência chega, ou a eletiva atrasa, ou a urgência espera. A regra é simples: quem está na vaga de urgência não está na agenda de eletivas daquele horário.
Exemplo de modelo do centro cirúrgico (urgência)
| Turno | Horário | Vagas | Especialidade | Valor | Teto |
|---|---|---|---|---|---|
| Diurno | 7h às 19h | 1 | Cirurgia geral | R$ 1.900 | R$ 2.300 |
| Diurno | 7h às 19h | 1 | Anestesiologia | R$ 1.900 | R$ 2.300 |
| Noturno | 19h às 7h | 1 | Cirurgia geral | R$ 2.100 | R$ 2.500 |
| Noturno | 19h às 7h | 1 | Anestesiologia | R$ 2.100 | R$ 2.500 |
- Plantões no mês: 4 vagas por dia × 30 dias = 120 plantões.
- Custo previsto: 60 × R$ 1.900 + 60 × R$ 2.100 = R$ 114.000 + R$ 126.000 = R$ 240.000.
Especialidades com pouca urgência, como algumas cirurgias de especialista, costumam ficar de sobreaviso: o médico não fica no hospital, mas atende o chamado num tempo combinado. Sobreaviso tem regra e pagamento próprios. Veja em plantão de sobreaviso: como funciona e quanto pagar.
O médico que trabalha em mais de um setor
Aqui mora o erro que nenhuma planilha por setor enxerga. O mesmo intensivista dá noite na UTI e dia no PS. O mesmo clínico pega UPA e reforço do pronto-socorro. Cada planilha, sozinha, parece certa. Juntas, mostram o médico emendando dois turnos sem descanso.
Por isso as regras de pessoa valem para o hospital inteiro, não para o setor:
- Descanso: o intervalo entre o fim de um plantão e o começo do próximo, em qualquer setor. Veja descanso entre plantões.
- Carga semanal: o total de horas do médico na semana, somando todos os setores. Veja limite de horas do plantonista.
Já as regras de vaga são do setor: a especialidade exigida e o teto de valor. Misturar as duas coisas é o que gera tanto o furo quanto o excesso.
Um coordenador por setor, regras iguais para todos
Em hospital com vários setores, cada um costuma ter o seu coordenador. Isso é bom: quem conhece a UTI monta a UTI. O cuidado é cada coordenador mexer só no próprio setor e todos seguirem as mesmas regras de descanso e carga. E toda mudança precisa ficar registrada: quem abriu a vaga, quem aceitou a troca, quem confirmou, com data e hora. Veja em como registrar quem mudou a escala e quando e em como aliviar o trabalho do coordenador da escala.
Como o adm.hospital organiza a escala por setor
O adm.hospital é o sistema de escala do hospital. Ele trabalha exatamente com a lógica deste artigo:
- Um modelo por setor: turnos, especialidade exigida, valor e teto de cada plantão. O mês nasce do modelo.
- Trava de regras antes de escalar: descanso, carga semanal, especialidade exigida e teto são conferidos antes de confirmar. Quem quebra a regra não entra, e o motivo fica escrito.
- Vaga para quem pode assumir: o plantão em aberto vai só para quem cumpre a regra do setor. Mais sobre isso em plantão descoberto.
- Troca com o titular até o aceite: o plantão continua com quem estava escalado até um colega que cumpre a regra aceitar. Veja quem responde na troca de plantão.
- Acesso por papel e setor: quem cuida da UTI não altera o centro cirúrgico. Detalhes em segurança.
- Histórico com data e hora: cada mudança fica registrada com autor.
- Divisão das datas difíceis: noites, fins de semana e feriados por pessoa, com a média do grupo.
- Fechamento em CSV: plantões, horas e valor por profissional, numa planilha que abre no Excel. Veja fechamento mensal de plantões.
Não precisa começar pelo hospital inteiro. Comece por um setor, um mês, e decida se vale para o resto. Veja como contratar, como fica a semana do coordenador ou teste uma semana de escala no navegador, sem cadastro.
Checklist antes de publicar a escala de cada setor
- O setor tem modelo próprio, com turnos, vagas, especialidade, valor e teto?
- Cada vaga exige a especialidade certa (intensivista na UTI, pediatra na vaga de criança)?
- No PS, o reforço do horário de pico está no modelo como turno?
- No centro cirúrgico, quem está na urgência está fora da agenda de eletivas daquele horário?
- Descanso e carga semanal foram conferidos somando todos os setores do médico?
- A divisão de noites, fins de semana e feriados está perto da média do grupo?
- O custo previsto do mês cabe no que a direção aprovou?
Depois do mês fechado, acompanhe os números de cada setor separadamente. Veja quais indicadores acompanhar na escala médica.
Perguntas rápidas
Posso usar o mesmo modelo de escala para UTI e pronto-socorro?
Não é o ideal. A UTI tem demanda estável e exige intensivista; o PS varia por horário e pede reforço no pico. Cada setor precisa do seu modelo, com turnos, especialidade, valor e teto próprios.
Quantos médicos plantonistas a UTI precisa?
Depende do número de leitos, do tipo de UTI e da norma vigente da Anvisa e do CFM. Confira a regra atual com a responsável técnica e use a conta de plantões do mês para saber quantos nomes a equipe precisa.
Como montar a escala de um pronto-socorro com horário de pico?
Olhe os registros de atendimento para achar o horário em que a fila cresce e crie um turno de reforço no modelo, com horário, especialidade e valor próprios. Costuma sair mais barato que um médico a mais no turno inteiro.
O plantonista da urgência do centro cirúrgico pode operar eletivas?
Não no mesmo horário. Quem está na vaga de urgência deve ficar fora da agenda de eletivas daquele período; senão a urgência espera ou a eletiva atrasa.
Como evitar que o médico emende plantões em setores diferentes?
Descanso e carga semanal precisam ser conferidos somando todos os setores, não só o setor da vaga. No adm.hospital, essas regras são checadas antes de confirmar o plantão.
